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De quando o Rio Belém era apenas mais um “ribeiro”

Reprodução de pintura - "Curityba em 1855"
Pintura de G. Schlichting reproduzindo a anterior de John Henry Elliot
Acervo: IHGPR

Começamos pelo ano de 1668. O Campo de Curitiba, nesse momento, conta apenas com dezessete moradores e está prestes a iniciar sua história como núcleo habitacional. Antes disso, a região já havia sido foco de atenção de um e outro aventureiro. Em 1646, o Capitão Gabriel de Lara, que já havia fundado a povoação de Paranaguá por volta de 1644, viaja até São Paulo com o objetivo de comunicar às autoridades responsáveis “o descobrimento de ouro de lavagem nos ribeiros dos Campos de Curitiba” (1). Os boatos de que havia ouro nessa região, confirmados pelo Capitão, já eram antigos. Um bandeirante, de nome Heliodoro Éobanos (ancestral próximo de Ébano Pereira (2), um dos primeiros povoadores da região), já anunciava pequenas manchas auríferas nesses campos em 1560, mas apenas no século seguinte a região atraiu aventureiros em busca do ouro de aluvião. 

Nesse momento da história, os rios mantêm uma importância fundamental na estrutura de qualquer núcleo habitacional. Além de sua função vital para a vida humana como fonte de abastecimento de água para a população e animais, os rios também tinham grande importância econômica, seja pelo ouro de aluvião, pela navegação ou mesmo pela pesca. 

A história de Curitiba também está diretamente ligada à história de seus rios, já que sua primeira vocação econômica é o ciclo do ouro de aluvião, encontrado nos vários ribeiros da região. Curioso observar que, durante o século XVII, todos os rios dos campos de Curitiba eram chamados de ribeiros, na falta de um nome indígena (3), o que dificulta a precisão na identificação dos rios indicados nos documentos oficiais produzidos durante esse período; na maior parte dos casos, apenas a localização, nem sempre exata, nos oferece a pista sobre qual rio os documentos se referem. 

Com as ambições despertadas pelas notícias sobre o ouro, “ao sertão aurífero afluíram os primeiros grupos históricos povoadores: o de Eleodoro Ébano, em 1647, com a administração das minas” (4), seguido por Baltazar Carrasco dos Reis e Mateus Leme. A história de Curitiba, portanto, é anterior ao ano de 1668; contudo, os primeiros documentos oficiais da região datam desse período e apresentam a vontade dos primeiros habitantes em elevar o pequeno núcleo habitacional ao patamar de Vila, para que houvesse a eleição das autoridades e a criação da justiça. 

No entanto, nem com a vontade dos habitantes, nem com a presença de Gabriel de Lara, capitão-mor de Paranaguá, a elevação de Curitiba à condição de Vila ocorre no tempo esperado pelos moradores. Não se sabe o motivo que impediu Gabriel de Lara de proceder à eleição das autoridades, de modo que, em 1668, não ocorreram as eleições para a câmara municipal. Cerca de vinte e cinco anos depois, em 29 de março de 1693, ocorre, enfim, a organização política de Curitiba, promovida por Mateus Leme, passando à condição de Vila. O nome escolhido foi Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais - antes dessa oficialização a região era chamada pelos habitantes e autoridades como Curitiba ou Campos de Curitiba. 

A criação da justiça era uma necessidade fundamental e reivindicada pelos moradores, já insatisfeitos com as infrações que estavam ocorrendo e que, na falta de um órgão de justiça, acabavam sem solução legal. Essa insatisfação pode ser percebida pelo documento que relata um fato ocorrido no dia 29 de Março de 1693, quando “(...) se ajuntou o povo todo desta Vila, e pelo capitão dela lhe foi perguntado, o que todos responderam em voz alta que se criasse a justiça para com isso ver se evitavam os muitos desaforos que nela se faziam (...)”. (5)

 A origem dos primeiros moradores dos Campos de Curitiba remonta a pequena povoação que vivia às margens do Rio Atuba. A informação de que haveria uma quantidade razoável de ouro na região de Curitiba traz alguns poucos moradores à região e, possivelmente, esses “primeiros habitantes constituíam uma população aventureira, errante, ocupada em batear o ouro de aluvião em mais de 30 ribeiros vistoriados por Gabriel de Lara (...)”. (6)

Sobre a mudança desses novos habitantes para a região do Largo da Matriz, atual Praça Tiradentes, conta a lenda que uma imagem de Nossa Senhora da Luz, muito venerada pelos moradores, sempre amanhecia com seu olhar voltado para certa direção, não importando o lugar em que havia sido deixada durante a noite. “Os mineradores residentes no povoado acreditavam que aquele seria um sinal da santa, indicando a direção exata onde deveria ser construída a capela definitiva para abrigar a imagem” (7). Ainda segundo a lenda, para ter sempre uma boa relação com os índios tinguis, esses povoadores buscaram os conselhos do cacique Tindiquera, para que ele indicasse o local mais apropriado seguindo a direção que a imagem da santa apontava. O cacique, após procurar por um bom tempo, levou esses habitantes a se instalarem no outeiro entre os Rios Belém e Ivo. 

 No Largo da Matriz, como era chamado, esses moradores vão construir dois símbolos: “uma capela de pau a pique coberta de palha, homizio da Fé, e um tosco tronco de pelourinho, representativo da Justiça” (8). Durante os anos seguintes, o Largo da Matriz, torna-se o centro das atividades políticas, religiosas e comerciais e, ao seu redor, foram construídas diversas casas residenciais (9). As casas eram construídas de pau a pique e barro batido, quase todas muito bem cuidadas (10). Boa parte dos moradores estava instalada às margens do Rio Barigui, visitando a vila apenas durante as festas religiosas e os “homens da Governança vinham a ela uma vez todos os meses” (11)

Alguns fatores impediram o crescimento populacional mais elevado na região da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. O isolamento, ocasionado por fatores geográficos, dificultava a venda da produção para as demais regiões da colônia portuguesa. Aqueles que insistiam em permanecer “acostumavam-se a plantar e criar quase somente aquilo de que necessitava para seu próprio consumo” (12). Além disso, o ouro de aluvião, um dos principais atrativos da vila, já começava a se tornar cada vez mais escasso nos ribeiros curitibanos. Ao descrever a situação das minas do Arraial Grande, Botiatuva e Morro Azul, Francisco Negrão aponta que os negócios não estavam bem, pois ao observar os inventários dos donos dessas minas, não se podia inferir prosperidade em ouro (13). Um dos poucos a prosperar na região foi o Capitão Antonio da Veiga, que demonstrou possuir boa quantidade de ouro por volta do ano de 1719 (13). No final do século XVII, por volta de 1695, a descoberta de ouro na região das Minas Gerais levou diversos aventureiros a tentarem a sorte em terras distantes dos Campos de Curitiba. 

O ciclo de povoamento em Curitiba modifica-se com a abertura do Caminho de Viamão, por ordem do capitão-general Caldeira Pimentel (14), tornando-se agora um projeto de ocupação fixa, diferentemente do que ocorria durante a mineração dos faiscadores. Aos poucos, surgem os chamados pousos e curais, onde o gado, trazido pelos tropeiros de São Pedro do Rio Grande, poderia descansar e engordar antes de ser levado até São Paulo. Esses animais “eram depois vendidos às necessitadas populações do rush do ouro, em Minas Gerais, cuja exploração mudou a história da ocupação do território brasileiro” (15). Com a modificação gerada pelo ouro de Minas e os demais problemas citados, o crescimento populacional em Curitiba será paulatino durante o século XVIII. 

No ano de 1820, o viajante naturalista Auguste de Saint-Hilaire observa a existência de duzentas e vinte casas “pequenas e cobertas de telhas, quase todas de um só pavimento, sendo, porém, um grande número delas feitas de pedra (...) e cada casa possuindo o seu quintal (pátio irregularmente plano com árvores frutíferas)”. (16)

Segundo Romário Martins, Curitiba, na época de sua elevação a capital da recém criada Província do Paraná, em 1854, era de “uma insignificância que de cidade só tinha o predicamento oficial” (17). A economia curitibana do XIX era baseada principalmente na criação de gado, vendido para São Paulo e Rio de Janeiro, na exploração da erva-mate, despachada, inclusive, para as cidades de Buenos Aires e Montevidéu, e no plantio de milho, feijão, aipim, batata, trigo e fumo (18)

De 1668, quando começa a história documentada dos habitantes dos campos de Curitiba, até fins do século XIX poucas são as referências a respeito dos rios da região – salvo alguns casos em que observamos descrições físicas e relatos sobre a existência de pedras preciosas nos leitos dos ribeiros. Um dos raros momentos em que os rios são vistos sob outro aspecto, além do físico ou econômico, refere-se à preocupação do Ouvidor Pardinho com o problema do lixo que é jogado pelos moradores nos rios da região: “decidindo que a população passaria a utilizar as águas do rio Ivo para beber e que o rio Belém receberia as “águas servidas”, ou seja, o esgoto” (19). No relato de viagem de Saint-Hilaire, a descrição dos rios é bastante sucinta: 

Vê-se em Curitiba duas fontes de pedra sem nenhum ornamento. Abaixo da cidade passam dois córregos, cujas águas são usadas pelos habitantes; um deles, que tem uma ponte feita de tábuas, corta a cidade de Castro. Existem também em torno da vila algumas nascentes de água muito boa, que são de bastante utilidade para seus habitantes. (20)

O relato de viagem de Avé-Lallemant, na metade do século XIX, aponta como característica principal da região o Rio Paraná (21), sem descrever maiores detalhes sobre seus usos. Confirmando a hipótese, já mencionada, que são poucos os relatos sobre os rios das região durante esse período. 

O problema das valas abertas foi recorrente durante o século XIX, especialmente no Largo da Matriz, como pode ser observado pela Ata da Câmara em nove de julho de 1856, no qual o senhor Paula Guimarães requereu “que se mandasse com urgência fazer dois paredões na vala, que corre na travessa e segue do Pátio da Matriz a sair da Rua da Carioca, chamado Beco do Saldanha (...)” (22). Até 1860 o problema ainda não havia sido solucionado e as reclamações acerca das valas abertas e da lama eram ainda assunto de debate na Câmara. 

Notas:
(1) MOREIRA, Júlio Estrella. Eleodoro Ébano Pereira e a fundação de Curitiba à luz de novos documentos. Imprensa da Universidade Federal do Paraná: Curitiba, 1972, p. 21.
(2) Ibid, p. 91.
(3) Ibid, p. 31.

(4) MARTINS, Romário. Terra e Gente do Paraná. Curitiba: Empreza Gráfica Paranaense, 1944. p. 210.
(5) NEGRÃO, Francisco. Memória Histórica Paranaense. A Tribuna, Curitiba, 1916, p. 63.
(6) PINTO, Rui Cavallin. Curitiba: 1668, 1693 ou outra data? Disponível neste link. Acesso em primeiro de abril de 2012.
(7) BERBERI, Elizabete ; SUTIL, M. S. . Tiradentes; a praça verde da Igreja. Boletim Informativo da Casa Romário Martins. Curitiba, v. 24, n. 120, p. 1-90, 1997. p. 1.
(8) MARTINS, Romário. Terra e Gente do Paraná. Curitiba: Empreza Gráfica Paranaense, 1944. p. 216.
(9) BERBERI, Elizabete. SUTIL, Marcelo Saldanha. Op. Cit. p. 5.
(10) WACHOWICZ, Ruy Cristovam. História do Paraná. Curitiba: Imprensa Oficial, 2001. p. 46.
(11) NEGRÃO, Francisco (Dir.). Boletim do Archivo Municipal de Curityba: Documentos para a história do Paraná. (Dir.) Curitiba: Livraria Mundial, 1924. p. 90. Disponível neste link. Acesso em 01/04/2012. 
(12) WACHOWICZ. Op. Cit.  p. 46.
(13) NEGRÃO, Francisco. Memória Histórica Paranaense. A Tribuna, Curitiba, 1916, p. 116.
(14) Livro 20 da Câmara de Paranaguá, fl. 120v, 19 set 1727.
(15) NETO, Vicente de Castro. Grande Curitiba: Um olhar sobre a evolução urbana. Disponível neste link. Acesso em primeiro de maio de 2012. p. 1.
(16) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pela comarca de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural, 1995. p. 105.
(17) MARTINS, Romário. Terra e Gente do Paraná. Curitiba: Empreza Gráfica Paranaense, 1944. p. 228.
(18) MARTINS, Romário. Terra e Gente do Paraná. Curitiba: Empreza Gráfica Paranaense, 1944. p. 231. SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pela comarca de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural, 1995. p. 107.
(19) CORRÊA, Maria Celeste (Org). Museu Vivo: Guia ilustrado da história do Paraná. Curitiba: Olhar Brasileiro, 2007. p. 63.
(20) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pela comarca de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural, 1995. p. 106.
(21) AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagem pelas províncias de Santa Catarina, Paraná e São Paulo (1858). Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980. p. 272.
(22) BERBERI, Elizabete; SUTIL, M. S. Tiradentes; a praça verde da Igreja. Boletim Informativo da Casa Romário Martins. Curitiba, v. 24, n. 120, p. 1-90, 1997. p. 8.

O Rio Belém ganha uma nova face na cidade: o projeto do Passeio Público

Ao final do século XIX, encontramos uma Curitiba de indústria acanhada, cujo principal produto era a erva-mate, levada em carroções para o porto de Paranaguá e para outros países da América Latina. Para se ter uma ideia, entre 1885 e 1886, a cidade possuía uma população de 15.000 habitantes, 1.286 prédios urbanos e 15 engenhos, destes oito a vapor e sete hidráulicos. Ainda encontramos pela cidade ruas estreitas e enlameadas, um abastecimento de água potável precário, levando a população a recorrer a quatro fontes, nas quais a água era pura e cristalina, havendo, em cada uma delas, uma bica baixa. 

Passeio Público em 1887.
Acervo: Casa da Memória/ FCC.

Os rios não estavam poluídos por detritos industriais. O maior problema enfrentado pela cidade eram os esgotos, os alagamentos e os pântanos, decorrentes da geografia e topografia de Curitiba. As águas estagnadas eram objeto de combate, pois se imaginava, nessa época, que as doenças se formavam nos locais pestilentos e eram transmitidas através do ar. Curitiba só teve água encanada no século XX, quando os canos de ferro produzidos pelas grandes cidades industriais permitiram maior acessibilidade à água e a depósito de esgotos. Dessa forma, diferentemente de grandes cidades industriais europeias a época, ainda não se presenciavam, na Curitiba do final do século, máquinas e multidões. 

Apesar de suas características, Curitiba era, desde 1856, a capital da Província do Paraná. Por isso, havia uma preocupação por parte dos governantes em atribuir um status de capital à cidade. A criação de um Jardim Botânico ou Passeio Público data de 1857, cuja proposta pauta-se na construção de um Horto Municipal, pertence ao projeto de elevação do status da capital. 

Apenas no ano seguinte, o dessecamento de pântanos e águas estagnadas ao redor do Centro constituiu-se em uma preocupação oficialmente registrada, verificada no ofício encaminhado pelo Dr. Muricy à presidência da Província alertando sobre o perigo da epidemia de colera morbus causada pelas águas estagnadas (1). Embora se tenha proibido o despejo de esgotos nos pântanos, os banhados e o lamaçal continuavam a ser o flagelo que preocupava a administração pública, a qual acaba por contratar engenheiros para examinar as condições do terreno da capital e as necessidades de saneamento. Ao diagnosticar a causa da umidade da capital proveniente da natureza pouco permeável do subsolo e da declividade quase nula dos talvegues dos rios Ivo e Belém, vários trabalhos de canalização são feitos dentro da cidade, porém insuficientes para resolver o problema das regiões pantanosas de Curitiba. 

Reprodução de mapa do Passeio Público em 1887.
Acervo: SEEC/PR.

Sob o título de Higiene Pública, o Jornal Dezenove de Dezembro comenta as condições da cidade em 1885, enfatizando as características do Rio Belém: 

Desde a ponte situada no Bourlevard 2 de julho, até o tanque do Sr. Bittencourt, o Rio Belém é muito estreito e sinuoso, de modo que permanentemente alaga aos terrenos que estão situados em suas margens numa grande extensão, do que resulta ficarem convertidas em brejos de águas estagnadas, que com resíduos vegetais que ali se acumulam, e, a favor dos fortes calores do verão, converteram-se em focos de febres malignas, paludosas e intermitentes, ponde em verdadeiro risco as boas condições higiênicas que deve ter a cidade. (2)

Além disso, o jornal atenta para a necessidade urgente de realizar obras de saneamento, atribuindo a essa parte central da cidade um perigo que ameaça a saúde pública. Somente com o projeto do Passeio Público, apresentado em janeiro de 1886 pelo Presidente Taunay à Câmara Municipal, poder-se-ia alterar o problema das regiões pantanosas de Curitiba. Tratava-se de um projeto para a construção de um logradouro público, a fim de urbanizar e sanear um espaço crítico da cidade, alvo de tantas referências à incompetência da Câmara e do poder público. Ademais, traria um embelezamento à cidade. 

A implantação do Passeio Público não pode ser entendida sem se abordar as transformações urbanas ocorridas na Europa. No século XIX, as cidades passam a ser analisadas em discursos de médicos, de engenheiros, de políticos e de outros preocupados com a recente descoberta do meio urbano como um novo problema (3). Cidades europeias como Londres ou Paris, ao receberem um grande fluxo de massas migratórias devido à Revolução Industrial e às transformações tecnológicas, tiveram sua configuração urbana mudada. Aglomerações, vielas sinuosas e escuras e o acúmulo da pobreza precisavam passar por reformas, pois é uma época em que se começava a reavaliar a importância da higiene pública (4)

Curitiba, embora ainda não fosse atingida por esses tipos de miséria, tratou de seguir o exemplo para evitar que o mesmo acontecesse. Para tanto, foram definidos novos arruamentos, hospitais, matadouros, bem como desenhos de praças e manutenção de áreas verdes. Começou-se, então, a legislar com o amparo de técnicos, transformando o aformoseamento e a geometria em expressões muito utilizadas, bem como a estética da cidade. A técnica era, portanto, o que solucionaria os males ao atingir a salubridade. 

No local onde foi construído o Passeio, havia a Chácara de Nhá Laura, também conhecida como “Chácara da Glória”, construída no alto de uma colina da qual se dominava a vista do então longínquo centro da cidade, local onde hoje está o Colégio Estadual do Paraná (5). Isolada no bosque, a chácara possuía um imenso casarão colonial e seus terrenos acabavam à margem do Tanque do Bittencourt. 

Chácara de Nhá Laura, local onde hoje se ergue o Colégio Estadual do Paraná
Acervo: SEEC/PR  (6)

Havia um engenho hidráulico e a residência de Caetano Munhoz, situados no bairro Alto da Glória, que foram arrasados por um incêndio, acabando por abalar a fortuna de Munhoz. A empresa Silva e Irmãos adquire a propriedade, reconstruindo o engenho de erva mate e vendendo sua produção à empresa comercial uruguaia pertencente a Francisco Fasce Fontana. Porém, a ervateira estava com muitas dívidas, as quais foram cobradas pessoalmente por Fontana que passa a se tornar sócio da então Silva, Irmãos e Fontana. 

Além de adquirir o engenho, Fontana fica noivo de Maria Dolores de Leão, filha do Desembargador Ermelino de Leão. Ao iniciar a modernização de sua fábrica para a força hidráulica, Fontana fez centenas de tapumes encobrindo toda a propriedade. O noivado foi, inclusive, motivo de chacota na imprensa (7), pois se acreditava que o noivo não havia feito os preparativos para o casamento. Nas vésperas do casamento, Fontana mandou derrubar os tapumes da reforma de sua fábrica e a velha chácara apareceu transformada em excelente vivenda, cercada de verde, cortada por canais navegáveis por pequenas canoas. O banhado que dominava a maior parte do terreno foi transformado num dos mais belos jardins de Curitiba da época. 

Embora o portal da nova construção tivesse causado grande impressão, maior ainda foi o impacto de todos ao se depararem com as obras de saneamento realizadas no terreno. O rio teve seu curso alterado, o terreno foi saneado e preparava-se o local do futuro jardim, que mais tarde ganharia fama em Curitiba. A residência Fontana viria a ser conhecida como Mansão das Rosas, demolida em 1974. Algumas fotos registram membros das famílias Leão e Fontana passeando de barco no trecho do Rio Belém que corria nos fundos do jardim. 

O então Presidente da Província, Visconde Alfredo Taunay, ao presenciar o casamento de Fontana, verificou o contraste entre o enorme terreno da mansão de Fontana com a retificação do Rio Belém e as outras áreas próximas, como a região pantanosa conhecida como o Banhado do Bittencourt. O presidente viu no ervateiro um ótimo diretor de obras para o projeto que começava a conceber para solucionar o problema da região. 

A proposta de criação do Passeio Público foi enviada à Câmara e aprovada. Fontana descreve os terrenos em que foi implantado o Passeio Público como “um lugar antes ocupado por um enorme pântano que era o justo terror da população, que via nele o foco e origem de inúmeras enfermidades malignas” (8). Três quartos dos terrenos eram de propriedade municipal, atravessados por um número considerável de canais do rio Belém em todos os sentidos, formando uma extensão fluvial superior a dois quilômetros. 

Após sua implementação, o Passeio Público passou a fazer divisa com o Bourlevard 2 de julho (atual Av. João Gualberto), a Rua Fontana (atual Rua Presidente Faria), a Rua Serrito (atual Rua Carlos Cavalcanti) e com os terrenos de Joaquim Bittencourt e Laura Borges, a Nhá Laura. O antigo tanque foi limpo e tanto ele como o Rio Belém foram tornados navegáveis em mais de 600 metros de canais, “fazendo-se uso de comportas que permitem renovar as águas constantemente” (8). Com arborização, o Passeio Público foi inaugurado em 2 de maio de 1886, sendo Francisco Fasce Fontana nomeado seu Diretor. 

Muitas foram as pessoas curiosas para conhecer o primeiro parque da cidade e, segundo o Jornal Gazeta Paranaense, “(...) [não] houve dúvida, quem intimamente não elogiasse o administrador da Província pelo benefício que fez a essa capital. (...) a festa esteve animadíssima e a tarde esplêndida” (9). Também não faltaram elogios à administração pública e associou-se a construção do Passeio a um serviço de higiene pública, pois acreditou-se substituir “um foco de infecção, um centro de miasmas pestilenciais por logradouro, o mais possível a saúde geral, pela condensação de vegetação e escoamento regular das águas” (10)

Os Presidentes seguintes também operaram obras no Passeio Público, como a construção de pontes artísticas sobre o Rio Belém, uma entrada geral com duas avenidas ao lado do Passeio e um largo ou praça, onde está erigida uma engenhosa máquina rodante de cavalinhos para recreio das crianças. Ao referirem-se ao Rio Belém, palavras como foco de pestilentos miasmas, sujo e vagaroso, local de brejos imundos davam o tom dos discursos que os Presidentes da Província tomavam para legitimar a necessidade de empregar recursos públicos no Passeio. Esses discursos estão expressos nas palavras do Presidente Faria Sobrinho, quando este inaugurou as novas obras em 1886: 

Que o Belém sujo, outrora, hoje corra cristalino, em caprichosas voltas, formando interessantes ilhas e curiosos labirintos, ao lado de formosas ruas e avenidas, dentre cujas leivas se destacam ora preciosos arbustos de nossos jardins, ora soberbas árvores das nossas florestas. Que estancadas as fontes de deletérios miasmas, o esforço ingente duma máscula energia, arrancou do fundo dos tremedais enorme tabuleiro onde, ao influxo de um gênio artístico, foram pouco a pouco se imprimindo os relevos que formam o detalhe do soberbo Passeio Público. (11)

A partir da inauguração do Passeio e de suas constantes obras de revitalização, os jornais atribuem outra faceta ao Rio Belém, como se pode observar na publicação do Jornal Dezenove de Dezembro, o qual atribui ao rio características como: o oferecedor dos verdes tabuleiros que existem nas margens, das majestosas palmeiras, das magníficas pontes, dos diversos passadiços, da máquina de cavalinhos, do lindo bote que sulca as águas. (12)

Os últimos trabalhos de Fontana como Diretor do Passeio Público alteraram ainda mais as características do Rio Belém: o levantamento com aterro feito nas margens e a colocação de 230 metros de cano de cimento para esgoto das águas das chuvas. Além disso, o grande lago foi ampliado e escavado, e também foi construído um novo açude no limite da Chácara Bittencourt, dotado de duas comportas de um sistema de renovação das águas. O novo açude também recebeu uma ilha arborizada e adornada em seu centro. A Rua Serrito (atual Carlos Cavalcanti) também sofreu alterações, quando uma vertente de água potável que estava abandonada nessa rua recebeu canalização e se posicionou um chafariz no lado externo do Passeio. 

Apesar de tais investimentos, as tensões políticas e a falta de recursos levaram a certa decadência do logradouro no final do século XIX, mas nem por isso o local deixou de ser o lazer favorito da população, com grande movimentação aos fins de semana. 

Curitiba, no início do século XX, conta com uma população de cerca de 60 mil habitantes (13). O Almanhach do Paraná, datado de 1900, publica um texto de Sebastião Paraná, o qual traça um panorama da cidade: 

A bela Capital do Paraná é iluminada a luz elétrica e percorrida por bondes da Companhia Ferro-Carril Curitibana. Uma rede telefônica facilita as comunicações. É atravessada pelos riachos Ivo e Belém, que também contribuem para a formação do Rio Iguaçu. O Belém serpenteia hoje através do Passeio Público que é um dos principais ornamentos. (14)

Em O Brasil Atual, Arthur Dias descreve a Curitiba de 1903 traçando um panorama positivo da cidade, especialmente a respeito do Passeio “(...) onde o riozinho Belém capricha numa das curvas todas graciosas (...) e não teve que ser incomodado no seu curso, mas decorado e alinhado com leves pontes rústicas e outras fantasias da arquitetura paisagística (...)” (15). Arthur Dias atribui a este logradouro como sendo um dos mais lindos das cidades do sul, embora o ache um pouco descuidado (16)

A visão romanceada de Dias não corresponde à tônica da descrição da Curitiba do início do século, na qual estava presente a crítica à administração municipal, cujo descaso dava a cidade um aspecto desolador devido à iluminação pública precária, ruas por calçar, falta de serviço de limpeza pública regular, passeios por construir e muita lama. Quanto ao Passeio Público, as principais queixas estavam nas pontes destruídas, árvores maltratadas, alamedas esburacadas, sem muro nem cerca, protegidas apenas por um fosso de um lado e do rio pelo outro. Cândido de Abreu foi o gestor que deu ao Passeio a devida atenção ao reformá-lo e dotá-lo de muitos benefícios que alinham tendências da época no que se refere ao lazer, arquitetura e paisagismo. 

Mesmo com todas as obras feitas, o problema que o Rio Belém representava para a cidade não foi solucionado. Em 1908, o prefeito de Curitiba chama a atenção do Presidente de Estado para “a necessidade de rebaixar o Rio Belém até a barra do Iguaçu para dar escoamento às águas que em tempos de chuva alagam essa cidade” (17). Em 1916, o prefeito Coronel Luís Antonio Xavier desapropriou o engenho Bittencourt, anexando sua área e o tanque ao Passeio Público. A desapropriação do engenho foi justificada pela necessidade de terminar as obras que estavam sendo executadas no Passeio, as quais estavam expostas e poderiam ser abaladas ou destruídas em virtude de enchentes ocasionadas pelos intensos temporais. O tanque era tido como imprescindível para complementar as obras. Parte do terreno da Chácara e Engenho integrados ao Passeio Público foram doados pelo município em 1916, para a construção da sede do Círculo Militar. (18)

Primeiro Jardim Botânico de Curitiba, atual Passeio Público, em 1908
Acervo: IPPUC

Barcos no Passeio Público, década de 1920
Acervo: Casa da Memória/FCC

Notas:
(1) LACERDA, Cassiana Lícia de. Passeio Público: Primeiro Parque Público de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, v.28, n. 126, ago.2001. p. 22.
(2) GARCEZ, Luiz Amando. Curitiba: Evolução Urbana. Curitiba: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Paraná, 2006. p. 23.
(3) SUTIL, Marcelo Saldanha. O espelho e a miragem: ecletismo, moradia e modernidade na Curitiba do início do século XX. Curitiba: Travessa dos Editores, 2009. p. 24.
(4) Ibid, p. 24.
(5) GARCEZ, Luiz Amando. Curitiba: Evolução Urbana. Curitiba: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Paraná, 2006. p. 38.
(6) Ilustração Brasília. Edição Comemorativa do Centenário do PR, Ano XLIV, número 224. dezembro 1953. p.179.  
(7) LACERDA, Cassiana Lícia de. Passeio Público: Primeiro Parque Público de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, v. 28, n. 126, ago 2001. p. 39. 
(8) Ibid, p. 42.
(9) Jornal Gazeta Paranaense, 4 de maio de 1886. Acervo da Casa da Memória. 
(10) LACERDA, Cassiana Lícia de. Passeio Público: Primeiro Parque Público de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, v. 28, n. 126, ago.2001. p. 46.
(11) Ibid, p. 56. 
(12) Ibid, p. 58.
(13) Ibid, p. 17.
(14) LACERDA, Cassiana Lícia de. Passeio Público: Primeiro Parque Público de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, v.28, n. 126, ago.2001. p. 89.
(15) Ibid, p. 92.
(16) Ibid, p. 93. 
(17) Ibid, p. 94.
(18) O Círculo foi construído em 1940, fez limite com o Passeio até 1978, quando ocorreu o prolongamento da Avenida Mariano Torres, sendo desanexado desse logradouro.

Soluções para um “problema” chamado Belém

Geograficamente, Curitiba está localizada na planície de inundação da bacia do Rio Iguaçu e o centro da cidade se encontra em uma colina espigada de vertentes suaves, na direção norte-sul, formando terraços enxutos com rampas ligeiramente inclinadas até as baixadas onde se encontram o Rio Ivo e o Rio Belém. 

As cheias dos rios Ivo e Belém provocam inundações nas regiões mais baixas do centro urbano (1). Muitos prejuízos eram decorrentes das enchentes, como a invasão das lojas comerciais pelas águas, paralisação da circulação de veículos, acumulação de lama e lixo. Havia uma ameaça onipresente na memória da população, atribuída às más condições sanitárias da capital paranaense. A rede de esgoto era reconhecida como o fator que ocasionava epidemias, pois devido à sua precariedade, os elementos de contaminação acabavam passando para o encanamento de abastecimento de água. Além disso, com as chuvas, a carga de líquido dos esgotos aumentava, determinando infiltrações na rede distribuidora de água potável. 

 No final da década de 30, aproveitando a presença no Brasil do urbanista francês Alfred Agache (2), o governo estadual resolveu encomendar um plano de urbanização para Curitiba. O saneamento do Centro constituía a principal meta do plano, a fim de resolver os constantes desastres causados pelas enchentes. 

Em 1940, o interventor Manoel Ribas determinou para o prefeito da capital que se formasse uma comissão para a elaboração de um plano, o qual se concluiria após dois anos e tomou o nome de “Plano de Urbanização da Cidade de Curitiba”. Dentro deste plano, destaca-se o Plano de Avenidas, cuja intenção era atender ao problema de escoamento das águas pluviais e defesas contra inundações, tendo em vista que muitas das avenidas projetadas se destinam a receber canais coletores das águas pluviais. 

Ao conceder a primeira entrevista à imprensa curitibana, em novembro de 1941, Agache atentou para a seguinte questão: 

Todo aquele que se interessa pela urbanização de Curitiba topará, de início, com um sério problema. Refiro-me aos rios que a banham como o Belém e o rio Ivo. São cursos d’água muito irregulares e sua retificação, portanto, redunda num pesado ônus aos cofres do Município. (...) O plano em vista é o do aproveitamento das grandes curvas dos rios para a construção de lagos. Assim, evitar-se-ia a retificação que aludi. (3)

 A proposta, no entanto, não se confirmou inteiramente. Os estudos levaram a outras soluções, que compreendiam canalizações através de tubulações, possibilitando a construção de avenidas-parques. Em 1942, o Plano de Avenidas foi aprovado e, com o intuito de facilitar o escoamento natural das águas, a cidade ganharia de um lado uma avenida-canal com 28 metros de largura que margearia o Rio Ivo e do outro uma avenida semelhante que coletaria as águas do Rio Belém desde o Passeio Público e as canalizariam até o encontro com o rio Ivo. 

Dessa forma, foi aberta a avenida-canal ao longo do rio Ivo e construída outra ao longo do Rio Belém desde o Passeio Público, um canal a céu aberto que seguia pela Rua Mariano Torres. Na década de 30 foram feitas obras de retificação do rio e na década seguinte o canal do Belém começou a ganhar os paredões com fundo acimentado. Os trabalhos eram penosos, artesanais, de colocação de pedra sobre pedra. 

Construção de muro de arrimo no Rio Belém, junto a Rua Felipe Camarão, em 1959. 
Foto: Arthur Wischral - Acervo: Casa da Memória/FCC 

Mesmo após a construção do canal na Rua Mariano Torres, o rio ainda constituía-se como um problema: 

(...) a permanência a céu aberto do rio Belém, no centro da cidade, obstacularizando o tráfego na zona central, constitui-se um problema que deve ser encarado com prioridade pelas autoridades municipais. (...) Há a questão sanitária, sempre agravada pela circunstância de ser aquele leito, natural despejo de águas servidas de dejetos de toda ordem, contribuindo para a poluição aérea, pela exalação do mau cheiro, para a poluição visual, pelo quadro nauseabundo que proporciona, diante da constante sujeira de suas águas. (4)

Em 1953, a pedido da Comissão Especial de Obras do Centenário da Emancipação Política do Paraná, o engenheiro Pedro Viriato Parigot de Souza analisava a canalização do Rio Belém. Em seu relatório, Parigot mostrou a importância da canalização, porque, segundo ele, 

As inundações frequentes e periódicas que se verificam na atualidade tenderão a aumentar grandemente em amplitude e frequência, em face de surto de edificações que o Centro Cívico determinará em seus arredores. Por outro lado, as condições higiênicas do curso d’água se tornam cada vez piores, com prejuízos à saúde pública. (5)

A necessidade de canalização era a única forma defendida pelos jornais como solução para o “problema Rio Belém”. O plano de canalização do Rio Belém foi colocado em prática na gestão do prefeito Saul Raiz. Proposto em 1975, alterou os planos anteriores de canalizar o rio pela Rua Mariano Torres. De acordo com o novo projeto, o rio passaria a ser canalizado pela Rua Tibagi, compreendendo 2.120 metros de extensão, e seria executado entre a Avenida Afonso Camargo e a Avenida Cândido de Abreu. 

Segundo o prefeito, o plano inicial de fazer o canal pela Rua Mariano Torres não seria possível por diversos motivos. Um deles seria a impossibilidade de fazer a ligação norte-sul que seria prioritária numa sequência da Avenida das Torres. E ainda havia o perigo de ser atingido o emissário principal do escoamento de esgoto de Curitiba, cujo rompimento traria consequências catastróficas. Por fim, ao ser notificado pela Sanepar de que em três ou quatro anos o emissário precisaria ser mexido para ampliação, o prefeito decidiu por construir junto com a canalização um novo emissário maior, tornando o existente obsoleto. (6)

 As obras de canalização iniciaram-se e foram executadas em etapas. Primeiramente, na Avenida Afonso Camargo até a Rua Tibagi, atravessando a Rua Sete de Setembro. Após a conclusão dessa fase, as obras iniciaram-se na Avenida João Gualberto, nas proximidades do Passeio Público, até a Avenida Cândido de Abreu. Por fim, deu-se a última etapa: da Avenida Sete de Setembro até o Passeio Público, sempre pela Rua Tibagi. (7)

Obras no Passeio Público, década de 1960
Acervo: SEEC/PR

Construção do edifício sede da FIEP, com Rio Belém nos fundos, década de 1960
Fonte: www.fiepr.org.br - Acervo: FIEP/PR
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A canalização foi assunto de muitas matérias jornalísticas, que buscaram na opinião pública uma posição favorável à canalização. O jornal Gazeta do Povo publicou, em 1975, mesmo ano da aprovação do projeto de canalização, uma matéria a respeito da opinião dos moradores da Rua Mariano Torres acerca da canalização do Rio Belém. Nas palavras do jornal: “ao menos em um ponto os moradores da Rua Mariano Torres concordam plenamente: o Rio Belém deve ser canalizado o mais rápido possível. (...) não importando se pela Tibagi ou pela Mariano Torres”. (8)

A mesma reportagem ainda chama a atenção pela forma de como rio é visto pelos comerciantes e pessoas que trabalhavam no comércio da Rua Mariano Torres: “um riacho poluído que atravessa a cidade, e onde todo mundo joga sujeira”. Para a população que trabalhava na Rua Mariano Torres dos anos 70, “o importante é que o rio desapareça de uma vez” e que a canalização fosse feita para mandar “esse cheiro ruim pra lá”. (8)

Apesar da opção feita pelo prefeito Saul Raiz em canalizar o Rio Belém pela Rua Tibagi, a Rua Mariano Torres também entrou no plano de obras. As obras na Rua Mariano Torres compreenderam a limpeza do canal do rio, a reconstrução dos muros nos trechos prejudicados pela erosão e fechamento do canal com placas de concreto pré-moldadas. A intenção da prefeitura era utilizar o canal como uma opção emergencial para casos em que ocorressem grandes enchentes em Curitiba. A quantidade de lixo encontrada nas galerias foi muito grande e retardou os trabalhos de asfaltamento. Após a retirada do lixo, as lajes pré-moldadas foram colocadas em cima das vigas, então o asfalto foi colocado. A Rua Mariano Torres tornou-se uma espaçosa avenida, integrando a Rua Cândido de Abreu à Avenida das Torres. Para ter-se uma ideia, o canal do Belém foi o maior canal urbano do país até então construído. 

Iniciadas as obras de canalização, é de supor que nem tudo ocorreu conforme o esperado, como nos conta a notícia: 

Fortes chuvas ocorreram em Curitiba, intermitentes, causando enchentes, alagando tudo. Nos primeiros dias de 1976, houve 14 inundações na bacia hidrográfica do Belém, no centro da cidade. Em fins de Janeiro, o rio subiu 4 metros e meio, rompendo uma adutora, derrubando pontes nos bairros e causando prejuízos de 35 mil cruzeiros por dia à canalização. (9)

Além disso, as escavações da obra também provocaram abalo na estrutura do antigo prédio do Colégio Santa Maria, que teve que ser demolido. Para a reurbanização da Rua Mariano Torres, 12 palmeiras teriam que ser derrubadas. Porém, o prefeito Saul Raiz foi ao local e mandou retirá-las com cuidado e transplantá-las no Parque Barigui. Também uma velha araucária localizada no Largo Bittencourt seria retirada, determinou-se, no entanto, que o traçado da rua fosse alterado. Essa alteração acabou por criar uma rua entre o Passeio Público e o Círculo Militar, em área pertencente anteriormente ao Círculo e comprada pelo município. 

No ano de 1977, as obras de canalização do Rio Belém foram concluídas até a Rua XV de Novembro. À medida que o canal foi sendo fechado e as obras complementares executadas, o departamento de Obras da Prefeitura foi repavimentando e refazendo os passeios. O calçamento em petit-pavê foi o tipo de calçada escolhida para pavimentar as ruas que receberam as obras de canalização. 

O jornal Correio de Notícias anuncia, em agosto de 1977, “o Rio Belém já tem novo percurso” (10) , pois o rio foi bloqueado em seu antigo leito e passou a correr pelo novo canal, no entroncamento entre o Passeio Público e o Círculo Militar do Paraná. Esse canal foi inaugurado pelo prefeito Saul Raiz no mesmo mês da publicação do jornal e compreendia a extensão de 1366 metros. As obras de canalização, iniciadas em 13 de junho de 1975, deram nova configuração ao Centro, tanto que o Jornal Gazeta do Povo noticia que “quem passar pelo cruzamento da rua XV de Novembro com a Mariano Torres nem dará conta do antigo canal a céu aberto existente até a pouco na região. Tudo foi fechado e o asfalto começa a cobrir o leito da rua” (11). A segunda etapa de canalização do rio, na Avenida Cândido de Abreu, ainda estava sendo acabada e, na sua conclusão, seria dado um percurso de 2160 metros ao rio. 

Em janeiro de 1978, todos os trabalhos relativos ao canal do trecho entre o Passeio Público e o Círculo Militar haviam sido concluídos. Em maio do mesmo ano, iniciou-se a concretagem dos últimos 21,65 metros do canal que daria condições de se construir o segundo braço da ligação, estando pronto cinco dias depois. Restava apenas a pavimentação final das ruas e o binário de ligação entre o Largo Bittencourt e o Centro Cívico, desembocando um dos braços ao lado do prédio da Federação das Indústrias e outro ao lado do prédio da Voupar, na Avenida Cândido de Abreu. Em junho a obra foi oficialmente entregue em um acontecimento marcado pela inauguração de um monumento em ferro e mármore e por uma exposição de toda a história da canalização no Largo Bittencourt. 

 O jornal Diário de Notícia, em 1978, anuncia: “daquele dia em diante, mesmo com fortes chuvas, as inundações do centro da cidade passaram a constituir apenas um capítulo no passado de Curitiba”. (12)

No entanto, um ano após o fim das obras de canalização e urbanização na Rua Mariano Torres, as reclamações a respeito do mau cheiro presente nessa rua recomeçaram a aparecer nos jornais. Embora a canalização tenha colocado fim ao lixo que era atirado em grande quantidade, ela não impediu a presença do mau cheiro. O jornal Correio de Notícias afirma: 

(...) como o escoamento é feito pela via, a ausência de água que carregue esses detritos tem encalhado toda a sujeira, vindo a deteriorar-se. A ocorrência do mau cheiro tem sido constatada principalmente ao anoitecer, deixando muitos moradores bastante preocupados com a situação, sem que nada possa ser feito. (13)

Outro jornal salientou que a canalização “chegou ao final como mais uma vitória da engenharia moderna e uma conclusão: é melhor salvar o rio, preservando suas margens, do que enfrentar penosas cirurgias urbanas, como a que foi submetida a cidade, rasgada de Centro a Sul em dois quilômetros.” (14)

Em 1979, na gestão do prefeito Jaime Lerner, o Rio Belém sofre um novo processo de canalização. Até o ano seguinte, as obras do então novo canal compreendiam uma extensão de 1.575 metros entre o Centro Cívico e a Rua Celesti Santi, no bairro Ahú. As obras foram desenvolvidas em três frentes de trabalho: o primeiro trecho inicia-se na Avenida Cândido de Abreu até o Pilarzinho, com 580 metros de canal; o segundo trecho até a Rua Heráclito de Araújo, com 495 metros e o último até a Rua Celesti Santi, com 500 metros. Com essas obras, intentou-se devolver o Rio Belém à população, com águas límpidas e despoluídas. O desafio dos arquitetos do IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba) era transformar uma região degradada por causa do rio poluído e das enchentes periódicas em uma região recuperada, que contasse com área de lazer e unidades culturais em estruturas arquitetônicas belíssimas. Para tanto, os quatro quilômetros de céu aberto do rio teriam em suas margens áreas livres e parques, ciclovias a fim de estimular o uso de bicicletas, passarelas que ligariam as duas margens, além de tanques para crianças em certos trechos, corrigindo as inundações provocadas pelas partes mais baixas do Belém. (15)

O projeto previa ainda a abertura de um sistema de esgotos, a Estação de Tratamento de Esgotos do Belém, a qual permitiria um grau de purificação das águas na ordem de 95% . A desativação de algumas indústrias, antigas fontes de poluição, também entrou em vigor. Além das obras realizadas no Rio Belém, seu afluente Rio Pilarzinho também sofreu com obras de canalização desde sua foz no rio Belém até a Rua Nilo Peçanha, trecho com 430 metros. Todo o canal foi construído em um novo leito, fechado, e com quatro metros de largura e três de profundidade. O objetivo das obras foi evitar as inundações periódicas que atingiam inúmeras residências no período de enchentes. Os trabalhos de canalização entre o Centro Cívico e a Rua Celesti Santi foram entregues nos prazos previstos, em julho de 1980. 

As obras de canalização realizadas no Centro Cívico foram apontadas como as responsáveis pelo fim dos problemas de enchentes e alagamentos verificados naquela região, pois permitiam que o rio atingisse até 20 vezes a sua vazão normal e evitavam seguidos desmoronamentos causados pela erosão (16). Concomitante às obras de canalização, as margens do Rio Belém receberam ciclovia em grande parte de sua extensão, desde a Rua Celesti Santi até a Av. Cândido de Abreu, passando pelo Bosque João Paulo II, bem como diversos equipamentos de lazer, dentre eles canchas esportivas, playgrounds e bancos de jardim. 

Outras obras de urbanização das margens do Rio Belém foram realizadas por Jaime Lerner no ano seguinte, em 1981. O projeto de urbanização fazia parte de um plano da prefeitura para a utilização de áreas de fundo de vale que oferecessem a possibilidade de serem transformadas em espaços de lazer, como foi o caso do trecho do rio que fica ao sul da cidade. As obras se localizaram entre a BR-116, junto ao Horto Municipal do Guabirotuba até a Vila Sofia, no bairro do Uberaba, e compreenderam quase seis quilômetros de extensão. 

Este projeto de urbanização determinou a construção de uma avenida paralela ao rio, que recebeu pavimentação de antipó e a implantação de uma linha de ônibus chamada Canal Belém. Previa ainda ações que acabaram não sendo executadas, como uma ciclovia com sete quilômetros de extensão que alcançaria o Parque Iguaçu e a construção de quadras esportivas, playgrounds e recantos nos bairros em que seriam realizadas as obras (17)

Embora as obras de canalização visassem o fim das enchentes e alagamentos, a ação preventiva não acompanhou o crescimento urbano, nem abrangeu todas as áreas de alagamento. No ano de 1982, moradores da Vila Sofia sofreram com o transbordamento do Rio Belém. Nessa área, onde o rio já havia sido retificado há 30 anos, a situação de alagamento foi ainda agravada devido a ocupação desordenada (18)

No ano de 1984 são instaladas mais duas comportas no Rio Belém. A comporta piloto, instalada um mês antes, localizava-se na Rua Antônio de Paula, enquanto a outra comporta localiza-se no bairro Boqueirão. Elas foram instaladas com o intuito de retardar o tempo de invasão das águas quando há chuvas intensas de curta duração, amenizando os problemas de alagamento nos bairros Boqueirão e Uberaba (19). Cinco anos depois, em 1989, engenheiros pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica lançaram um artigo a respeito do projeto sobre previsão de enchentes da Bacia do Rio Belém. Segundo eles, 

(...) a importância do estudo reside no fato de que o Rio Belém atravessa zonas densamente povoadas (...). Com a crescente impermeabilização das áreas de drenagem de nossa cidade, povoada pelos processos de ocupação e desenvolvimento urbano, a ocorrência de enchentes com as suas consequências desagradáveis tem se tornado cada vez mais frequentes. (20)

O estudo objetivou identificar e avaliar as áreas inundáveis, visando a aplicação de uma política mais racional e adequada de ocupação e proteção das áreas sujeitas a inundações. Não somente nas proximidades da universidade e da Vila Torres foram encontradas áreas críticas, sujeitas a extravasamento junto às margens do rio, mas também em outros locais, como os bairros Boqueirão, Vila Hauer, Prado Velho e Rebouças, regiões frequentemente afetadas pela ocorrência de enchentes do Rio Belém (20)

As inundações eram apenas parte do problema. O crescimento urbano e o consequente aumento do nível de poluição do rio levou a Associação de Moradores da Vila São Paulo a denunciar a situação em que se encontrava o Rio Belém no ano de 1987. Os moradores cobravam providências imediatas para limpeza do local, deteriorado pela descarga de lixo e dejetos (21). Segundo o Presidente da entidade, “os responsáveis pela descarga não são apenas os moradores, mas também os órgãos públicos que ali deixam resíduos de serviços executados, sem qualquer preocupação com a qualidade de vida da região”(21). Em uma reportagem publicada pelo jornal Expresso, em 1991, nota-se quão comprometidas estavam as águas do Rio Belém: “Pawlowsky (22) explica que existe uma escala de classificação de rios variando de 1 a 4. O nível de poluição do Belém é tão alto que o deixa fora dessas classes” (23). Embora a cidade fosse conhecida e admirada por seus parques, o sistema de esgotos não atendia nem 25% da população. Essa situação contradizia o status de Curitiba como “Capital Ecológica”.


Enchente no Rio Ivo, afluente da margem direita do Rio Belém, em 1996
Fonte: Jornal Gazeta do Povo, 28/12/96, p. 20 - Acervo: IPPUC

O Rio Belém já foi alvo de diversos projetos de conscientização, como o que incentivou a criação de um centro de piscicultura, intentando desenvolver pesquisas sobre criação de peixes em estações de tratamento de efluentes industriais, o que auxiliaria no controle da poluição e qualidade das águas. 

Outro projeto de conscientização foi realizado pelo Programa de Despoluição Ambiental. Implantado pela Prefeitura Municipal em 1991com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população, o programa pretendia ligar corretamente as moradias à rede de esgoto. A ligação correta do esgoto evitaria uma série de doenças, já que na época o Rio Belém possuía 800 mil bactérias por 100 ml de água no trecho que vai até o Passeio Público. A bacia do Belém Norte foi a escolhida para receber a primeira parte do projeto, pois nesse trecho estavam três importantes áreas de lazer de Curitiba: o Parque São Lourenço, o Bosque do Papa e o Passeio Público. Para chamar a atenção da população à necessidade de preservação dos rios, a prefeitura e autoridades públicas estatais realizaram uma festa no Bosque do Papa, a qual contou com diversas atrações musicais. A limpeza do rio e a descoberta de ligações irregulares na área correspondente à Bacia Norte (24) foi prevista para ser concluída em dois anos. 

Desde os anos 80, a prefeitura, através de um projeto de reaproveitamento do material retirado do Rio Belém, como a areia e a argila, utilizou desses materiais para construir ruas nos bairros, como no caso do Jardim Acrópolis, onde as ruas foram construídas com material proveniente de obras de dragagem. Essas ações contribuíram na construção da imagem de cidade “recicladora”, que Curitiba recebeu e a tornou famosa. 

Os anos 90 foram marcados por muitas obras de dragagem. Em 1994, o prefeito Rafael Greca autorizou a construção do Canal Belém, para maior controle, manutenção e proteção do leito do rio. As obras beneficiariam os bairros Ahú, Bom Retiro e Centro Cívico (25). No ano de 1998, as obras de dragagem evitaram que o rio transbordasse nos trechos entre o bairro Boqueirão e o Prado Velho, embora em determinados pontos o rio estivesse em níveis críticos de assoreamento, com até dois metros de altura em material e entulhos. No mesmo ano, o jornal Gazeta do Povo lançou a manchete de que “saem do Belém 37 mil m3 de sujeira” (26), onde até sofás e geladeiras foram encontrados no leito do rio que passava pelo Uberaba e Boqueirão, trecho em que o rio foi dragado. Atribui-se à população ribeirinha a responsabilidade por grande parte do lixo despejado diretamente no rio, no entanto, isto não corresponde aos fatos, visto que o rio sofre com as ligações de esgotos irregulares em todos os bairros pelos quais passa, agravando-se na região central. 

 Em um estudo da relação entre a estratificação socioeconômica da população residente e a qualidade das águas da Bacia do Rio Belém, Bilbao demonstrou que a qualidade da água não está diretamente ligada à estratificação socioeconômica da população, mas sim à falta de interesse da população em geral com a causa do Rio Belém. Nesse sentido, a relação com a qualidade das águas é proporcional à convivência com o rio. Nos bairros mais ricos que recebem o Rio Belém canalizado, a população não desenvolve um sentimento de pertencimento para com o rio, gerando o descaso. Já nos bairros de menor renda per capita e onde a população ocupa as margens dos rios, esta tem a qualidade das águas como um fator determinante para sua saúde e convivência (27). Seguindo essa linha de raciocínio, Fábio Duarte defende a ideia que o rio, ao atravessar os conjuntos habitacionais populares, é percebido pela cidade. 

(...) de modo casual e preconceituoso, ou seja, ligam a poluição do rio à sua ocupação urbanística imediata (os conjuntos habitacionais populares e favelas), quando na verdade, ele emerge de sua passagem subterrânea pelo centro da cidade sem vida. (28)

No ano 2000, o resgate histórico e a necessidade de preservação e limpeza dos rios em geral ganha mais atenção. Novamente foram realizadas obras de dragagem no bairro Boqueirão, foi realizado o alargamento do rio, pois causava enchentes, nos bairros Hauer, Uberaba, Boqueirão e Guabirotuba. A necessidade de desassoreamento é frequente, pois o assoreamento do rio chega a um metro a cada ano, tendo levado a prefeitura a rebaixar seu leito em 1,5 metros e alargá-lo para 15 metros em determinados pontos. Também foi prevista a construção de duas áreas de escape para as águas das chuvas, cada uma contendo seis mil metros quadrados (29). É interessante notar a crítica dos jornais com relação à situação do Rio Belém no fim do século XX: 

O orgulho ecológico de Curitiba é ferido, todos os dias, por um curitibano velho, sujo, fedido e moribundo que insiste em correr pela Capital Ecológica sem dar nenhuma satisfação para ninguém. O velho costuma dar o ar de sua graça naquilo que é uma marca da cidade: os nossos parques. Diariamente, ele não pede licença aos frequentadores assíduos e aparece em alguns espaços de lazer mais tradicionais de Curitiba: o Parque São Lourenço, O Bosque do Papa e o Passeio Público.  (30)

Ao resgatar a história do Belém, os jornais colocam as possibilidades dos rios que não foram aproveitadas, como o uso para abastecimento. A Curitiba da virada para o século XXI já não possuía um rio próprio para o abastecimento. 

Não só de dragagens viveu o Rio Belém no início do século XXI. Sua nascente, no bairro Cachoeira, ganhou um parque de 15,2 mil metros quadrados, no ano de 2001. Além da nascente principal do rio, foram encontrados dois olhos d’água de afluentes, sendo um deles, inclusive, descoberto por moradores que entraram em contato com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente. O Parque da nascente também recebeu uma unidade de Educação Ambiental para alunos de escolas do município e teve em sua implantação diversos projetos de educação ambiental. 

Nem todas as obras de dragagem idealizadas pela prefeitura tiveram um impacto positivo sobre a população que morava perto dos locais onde o rio precisava de limpeza. No ano de 2002, moradores do bairro Barreirinha impediram que máquinas da prefeitura iniciassem as obras para diminuir os riscos de enchentes na região, pois, de acordo com eles, o plano de prefeitura iria apenas amenizar a situação (31). Os moradores não queriam apenas obras paliativas para as enchentes, as quais representavam parte de um problema maior, mas sim que fosse realizado o saneamento completo da região. Os moradores reclamavam do mau cheiro constante, diferentemente das enchentes que não aconteciam todo ano. O padre local salientou a consciência dos direitos no jornal Gazeta do Povo: “As pessoas estão mais conscientes e estão dispostas a lutar pelos seus direitos”. (31)

Essa consciência ambiental se estende à comunidade acadêmica do Campus Politécnico da Universidade Federal do Paraná, como pode ser verificada na denúncia feita pelos estudantes do último ano do curso de Engenharia Florestal, em 2005, da poluição causada pelo esgoto da Universidade no campus Politécnico e Jardim Botânico às nascentes de água que cortam os dois campus. A manifestação de tratamento que filtrava os dejetos do bloco de saúde estava fechada há meses e o esgoto era despejado sem qualquer tratamento (32). Esse fato gerou calorosas discussões, pois um mês antes os estudantes de Engenharia Florestal tiveram um Congresso cuja pauta era justamente a qualidade da água do país e a importância da preservação das nascentes. “A universidade, que deveria estar dando o exemplo, é a responsável pela contaminação da água”(32), salienta um estudante. A reitoria, em contrapartida, prometeu resolver o problema, alegando que ainda não o havia feito por questões burocráticas envolvendo a Sanepar. 

No ano de 2005, um amplo projeto técnico de despoluição do rio entrou em pauta, principalmente na mídia, uma vez que a imagem do rio assimilada pelos curitibanos era péssima: “de um grande e vergonhoso canal de esgoto que não tem solução e que, por isso, merece ser escondido” (33). O projeto de despoluição e revitalização do rio consistia não em canalizar o rio e enterrá-lo, mas sim a descanalização de alguns trechos, reincorporando o rio à cidade (33). Inclusive, havia a previsão da construção de um espelho d’água na Rua Mariano Torres, para lembrar a população do rio que corre logo embaixo. O projeto, no entanto, era muito custoso à prefeitura na época e não tinha cronograma previsto para o seu início. 

A imprensa envolve-se com a questão de revitalização do rio, com a publicação de reportagem pelo Jornal Gazeta do Povo com sugestões de seis soluções para salvar o rio Belém (33). As soluções iam do combate às ligações de esgotos clandestinas e do tratamento da água dentro do leito do rio ao envolvimento da população no projeto de revitalização. 

Muito mais do que obrigar os moradores a ligarem legalmente seus esgotos e conscientizar a população a não jogar quaisquer tipos de lixo no rio, é preciso educar a população de maneira que esta reconheça a importância histórica do rio e o preserve como um patrimônio natural da cidade. 

Rio Belém retificado passando pelo bairro Uberaba
Foto: Maurílio Cheli - Acervo: IPPUC

Notas:
(1) GARCEZ, Luiz Amando. Curitiba: Evolução Urbana. Curitiba: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Paraná, 2006. p. 69.
(2)  Alfred Agache prestava consultoria à empresa Coimbra Bueno, que conquistou os contratos de elaboração de planos diretores para diversas cidades brasileiras oferecendo soluções de desenho urbano e saneamento ambiental após diagnóstico e análises urbanas, conforme metodologia contemporânea.
(3) GARCEZ, Luiz Amando. Curitiba: Evolução Urbana. Curitiba: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Paraná, 2006. p. 74.
(4) Jornal Gazeta do Povo, 06 de agosto de 1970. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(5)Jornal Correio de Notícias, 15 de julho de 1978. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(6) Jornal O Estado do Paraná, 23 de maio de 1975. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(7) Jornal Gazeta do Povo, 25 de setembro de 1975. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(8) Jornal Gazeta do Povo, 09 de maio de 1975. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(9) Jornal A Voz do Paraná, 19 de julho de 1978. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(10) Jornal Correio de Notícias, 06 de agosto de 1977. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(11) Jornal Gazeta do Povo, 26 de fevereiro de 1977. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(12) Jornal Diário do Paraná, 29 de dezembro de 1978. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(13) Jornal Correio de Notícias, 14 de março de 1979. Acervo da Casa da Memória. p. 16.
(14) Jornal Correio de Notícias, 15 de julho de 1978. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(15) Jornal Diário do Paraná, 18 de Janeiro de 1980. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(16) Jornal Gazeta do Povo, 16 de outubro de 1982. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(17) Jornal Diário do Paraná, 27 de novembro de 1981. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(18)  Jornal Gazeta do Povo, 10 de julho de 1982. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(19)   Jornal Gazeta do Povo, 25 de julho de 1984. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(20) Jornal do Estado, 25 de janeiro de 1989. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(21)Jornal do Estado, 21 de janeiro de 1987. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(22) Dr. Urivald Pawlowsky era o então assessor da Secretaria do Meio Ambiente.
(23) Jornal Expresso, 17 de julho de 1991. Acervo da Casa as Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(24) A Bacia Norte abrange os bairros: São Francisco, Mercês, Bom Retiro, Pilarzinho, Abranches, São Lourenço, Ahú, Centro Cívico e Alto da Glória, se estendendo até o Passeio Público.
(25) Jornal Correio de Notícias, 5 de setembro de 1994. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(26) Jornal Gazeta do Povo, 9 de setembro de 1998. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(27) BILBAO, D. B. Relação entre estratificação socioeconômica da população residente e qualidade das águas na bacia do Rio Belém. 2007. 103 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Engenharia Ambiental) – Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2007.
(28)  DUARTE, Fábio.  Rastros de um rio urbano: cidade comunicada, cidade percebida. Disponível neste link.
(29)  Jornal Indústria e Comércio, 24 de abril de 2000. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(30)  Jornal Gazeta do Povo, 27 de junho de 2000. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(31)Jornal Gazeta do Povo, 8 de março de 2002. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(32)Jornal Gazeta do Povo, 15 de agosto de 2005. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.
(33) Jornal Gazeta do Povo, 16 de outubro de 2005. Acervo da Casa da Memória. (sem página) Esse jornal pode ser encontrado na Casa da Memória de Curitiba através da busca por PAHI, RIO. Curitiba, [s. n] 1 pasta.