Considerações finais

“(...) os rios e suas margens não são, para esse projeto, metáforas nostálgicas de uma urbanidade perdida. Mas, talvez, chaves de uma urbanidade recalcada e latente no coração decrépito, e ainda mal formado, das cidades brasileiras. Chaves que hoje, em novo registro, aparecem como centrais no conflituoso processo de reconfiguração urbana que se dará, nestas cidades, em um futuro próximo.” 
Guilherme Wisnik 

Segundo definição do Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a paisagem cultural é uma porção peculiar do território, representativa do processo de interação do homem com o meio natural, à qual a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores. 

A paisagem cultural do Rio Belém consiste, portanto, em uma somatória de fatores que incluem aspectos ambientais, históricos, sociais, culturais, políticos, econômicos, entre outros, que formam um sistema complexo que se apresenta em contínua transformação, em sintonia com a dinâmica da própria cidade. 

Ao percorrermos a trajetória desse rio urbano, destacamos o Rio Belém como um dos elementos definidores da ocupação histórica da cidade, bem como um importante indicador de qualidade socioambiental e urbana. Desde sua utilização como recurso essencial para a vida da população e do meio-ambiente, como cenário de vivências, celebrações, mobilizações sociais em torno de sua preservação e ainda como fonte de expressão da memória urbana. 

Retratamos um rio reconhecido por sua poluição, mau cheiro e suas inconvenientes enchentes, que serve como um canal para escoamento de esgoto, lixo e até cadáveres. Retratamos também crianças brincando em suas margens, a pescaria recreativa de final de semana e as bicicletas circulando pela ciclovia que o acompanha. Muitos pássaros e alguns peixes, entre outros animais, trechos com vegetação nativa e árvores de grande porte, trechos áridos e sem nenhum tratamento paisagístico. Retratamos o rio correndo em direção à sua foz com o suave barulho de suas águas presente em dias de sol e corredeiras cheias na tensão da eminente inundação em dias de chuva. 

Considerando que a preservação dos recursos hídricos e a valorização da dimensão simbólica da água são de vital importância para o desenvolvimento sustentável das cidades, buscamos com essa pesquisa resgatar o verdadeiro valor de riqueza dos rios urbanos, relembrar memórias urbanas de seus usos e interações em tempos passados, bem como revelar que ainda podemos tê-lo como um berço de vida, cultura e bem-estar. 

Mas para que a paisagem cultural do Rio Belém seja reconhecida e preservada, temos um longo caminho a percorrer. É necessário não apenas identificá-la, mas também torná-la visível à população curitibana e incorporá-la no imaginário da cidade. 

Isso se dará através da educação ambiental e patrimonial, do fortalecimento das relações de uso e afetividade com o rio, da atribuição e reconhecimento de valores da população com suas águas urbanas contribuindo com a criação de identidade local e senso de pertencimento. Somando-se a isso, ainda, indispensáveis esforços de planejamento e gestão apoiados por políticas públicas de longo prazo, comprometidas com o desenvolvimento da cidade sustentável. 

A paisagem cultural do Rio Belém está em constante transformação e esta pesquisa revela apenas uma de suas possíveis leituras. Uma série de retratos que resgatam parte de sua história, revelam sua contemporaneidade e que, somados, podem indicar seu desenvolvimento futuro. O Rio Belém e as águas urbanas são sinônimos de vida, e tal reconhecimento é indispensável para a conquista da urbanidade, a qualidade urbana. 

Pôr do sol no Rio Belém, divisa dos bairros Hauer e Guabirotuba. 
Foto: Gabriel Gallarza

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